Dois filmes brasileiros
foram contemplados no exterior ao abordarem um dos períodos mais vergonhosos da
história do nosso país: a ditadura militar. O Agente Secreto, premiado ontem no
Globo de Ouro 2026, em Los Angeles, é dirigido por Kleber Mendonça Filho,
cineasta reconhecido por obras como Bacurau e Aquarius. Na mesma premiação,
Wagner Moura recebeu o prêmio de Melhor Ator. O outro filme, Ainda Estou Aqui,
é do diretor Walter Salles, consagrado internacionalmente por trabalhos como
Central do Brasil e Diários de Motocicleta, e foi premiado em março de 2025,
reforçando seu reconhecimento internacional. A atriz Fernanda Torres foi
laureada, e o elenco ainda contou com a atuação marcante de Selton Mello. Essas
conquistas enchem de orgulho a alma do povo brasileiro, que não merece jamais
voltar a sofrer a humilhação imposta pelo regime militar.
O que causa profunda
preocupação é o fato de ainda existir, na sociedade brasileira, um segmento de
extremistas de direita que ignora, ou
finge desconhecer, esse período sombrio e sangrento da nossa história. Trata-se
de um tempo que deixou marcas indeléveis na vida social, política e
institucional do país, marcado por métodos autoritários e pela supressão de
direitos. Ainda assim, há quem defenda o retorno da ditadura, muitas vezes
iludido por narrativas fantasiosas difundidas por pseudo-líderes que insistem
em apresentar aquele momento como uma fase de prosperidade econômica. Foi, na
verdade, um período de intenso sofrimento, minha gente.
Para
quem não sabe, ou prefere esquecer, a hiperinflação brasileira, que chegou a
cerca de 80% ao mês e ultrapassou 2.000% ao ano, foi consequência direta das
políticas adotadas durante os governos militares. Uma herança maldita, fruto de
gestões públicas temerárias, que os governos civis posteriores precisaram
enfrentar. A estabilização da economia só ocorreu com o Plano Real, em 1994, no
governo Fernando Henrique Cardoso. À época, o Brasil encontrava-se
profundamente endividado junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI),
acumulando uma das maiores dívidas externas do mundo. Resultado da atuação do
então ministro da Economia, Delfim Neto, que optou por expandir o PIB por meio
do endividamento externo e pela concentração significativa de renda. Quem pagou
essa conta foi a população brasileira, sobretudo os mais pobres. Faço aqui
apenas um breve resumo, sem me aprofundar nos detalhes da conjuntura econômica
sob os generais.
Por
fim, destaco que filmes como os premiados acima cumprem um papel fundamental ao
lembrar e relembrar a sociedade da tragédia vivida pelo Brasil sob o comando
dos militares. Para ilustrar, o deputado federal Ulisses Guimarães, do PMDB,
homem de hábitos conservadores, afirmou com clareza: “Eu tenho ódio e nojo da
ditadura”. Não há muito mais a acrescentar. Como autor deste breve texto, faço
questão de deixar explícito: eu também tenho ódio e nojo da ditadura.

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